segunda-feira, 28 de março de 2011

Da série: Família a gente não escolhe

O meu tio de Uruguaiana

O meu tio de Uruguaiana sorri debochado. Lembro daquele sorriso eternizado nas fotografias e me sinto desconfortável em pensar no porquê dele estar na minha família. Não teria jeito, se não fosse ele seria outro.  Mas aquele sorriso, ahhhhhhhh, aquele sorriso faz com que a gente se sinta um lixo, um aterro no meu caso. Ele é do tipo que não aceita felicidade alheia. Do tipo que a única e verdadeira alegria é a que ele sente. Sim, porque apartamento, carro, faculdade e viagens só ele tem de melhor. Não importa o meu apartamento novo no Mont’Serrat, ele logo vai dizer que o bairro não é dos melhores e que a vizinhança não é de confiança. O meu carro zero na garagem que eu paguei à vista? Diz logo o Tio de Uruguaiana “Isso aí tem cara de usado, tem certeza que é novo?”. A viagem a Paris, “tem noção do frio que faz por lá essa época do ano?”, a viagem a Salvador “faz idéia do calor que está lá?”. Porto de Galinhas? “Que tu vai fazer por lá? Não há nada o dia inteiro a fazer”. E a faculdade então, “que futuro você vê nisso?” Não importa que seja Medicina na FUVEST ou Economia em Harvard, importa que ele diga que não presta. É como se a concepção dele fosse o famoso reconhecimento ilibado da sociedade, com exceção que a sociedade não tem aquele sorriso que só ele tem. Aquele sorriso do Tio de Uruguaiana que insiste em dizer: “Desista menina, você nunca vai chegar lá”. Até porque se um dia eu chegar, já não será mais suficiente, mesmo que ele ainda esteja aprendendo a caminhar e eu já esteja voando.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Quando o palhaço chora...



Quando o palhaço chora é um lamento escondido, sem que o mundo saiba, nem malandro, nem bandido...
Quando o palhaço chora não é alheio à sua vontade, chora de dor, de alegria e também chora de saudade...
Quando o palhaço chora não há vista de criança, disfarça tão bem seu desassossego que faz da tristeza sua dança...
Quando o palhaço chora não acaba o seu riso, faz do momento um espetáculo, nem que seja no improviso...
Quando o palhaço chora esconde tão bem o seu pranto e em face de tanto encanto quem imaginaria que sua alegria um dia acabaria?

quarta-feira, 2 de março de 2011

O achado do super herói


É complicado definir a dimensão que um super herói causa na vida de alguém. Quando crianças, somos instigados a tentar compreender o mundo mágico de super poderes, raios miraculosos, anéis que salvam vidas e transformam o mundo. Pular de um prédio a outro é fichinha. Vestir uma máscara e se transformar no cara mais forte e poderoso da terra é barbada. Mas bom mesmo é ser invisível. Esse era o meu desejo. Não que eu tivesse a pretensão de salvar o planeta com meu super poder. O que eu queria mesmo era futricar a vida dos outros e descobrir o que faziam quando não na minha presença. Talvez não gostasse nada do que fosse descobrir, mas imaginação de criança não pensa essas coisas (cof, cof, cof). A verdade é que longe de máscaras, capas, anéis, elmos e poderes, o que realmente me abastece é a ideia de que super heróis não mais existem. Não aqueles que eu conhecia na tela matutina da TV. Se eu fosse responder a um ping-pong, na clássica “qual seu super herói?” eu responderia, na lata, “o que fosse o mais super humano de todos”. Por que só um super humano é capaz de deixar transparecer uma lágrima, uma tristeza, um sorriso e uma alegria. Só um super humano é capaz de se virar nos trinta com um rendimento precário. Só um super humano é capaz de se comover com o outro; é capaz de dar tudo de si pelo não sofrimento alheio; é capaz de compreender que a vida não é brincadeira não, mas não é tão dura quanto parece. Só um super humano é capaz de olhar para si e dizer “obrigado, estou vivo”. Conheço, a bem da verdade, pouquíssimos do gênero e reconheço que cada vez é mais difícil se tornar um, talvez mais fácil um super herói. Mas a vida é assim mesmo, uma eterna tentativa, quem sabe, um dia, consigamos adquirir os poderes de rasgar as capas e tirar as máscaras que nos impedem de encarar a realidade como ela realmente é.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os “estágios” da faculdade...

Costumo dizer que a faculdade tem seu antes, durante e depois, como praticamente tudo nessa vida. É engraçado como esses estágios acontecem. No tempo de escola o comum era ouvir “estuda menina para ser alguém na vida” e assim ia eu com a mochilinha verde (maior que eu) nas costas, meu estojo de girafinha e meus cadernos caprichosamente encadernados. Não que eu fosse uma exímia estudante, eu não gostava de passar horas a fio lendo ou me dedicando aos deveres de casa, embora adorasse aprender e ia bem no colégio, sim senhor. O que eu gostava mesmo era de dizer “estou estudando, porque quero ser alguém na vida”. Pudera, era o discurso do momento.
No ensino médio, por sua vez, os professores não mais usavam o método do “ser alguém na vida”, era o momento da disciplina, “do monstro da faculdade”. “Pessoal, cheguem cedo, se dediquem, ouçam seus professores, a universidade não é moleza não”. E o tempo ia passando, o 3º ano chegando e o misto de ansiedade e “pavorzinho” ia se aproximando.
Passado o vestibular, compreendi que universidade pode ser moleza sim e que os professores não são os carrascos pintados no ensino médio. A diferença é que tudo depende da gente: seguir, parar ou desistir. E não há mais reuniões com os pais a cada bimestre para discutir o vermelho do boletim. É o momento que a gente se acha adulto, quando exibimos nossas pastas bordadas com o nome do curso como se fosse um troféu, quando nos abarrotamos nos exprimidos ônibus universitários. Mas quando chega o fim, voltamos à sensação de fragilidade, de crianças indefesas e nos perguntamos “pronto, estudei e agora quem serei eu nessa vida?” e descobrimos que teremos de nos dedicar a ser sempre mais, para ter mais, para conseguir mais.
Passada a fase universitária, nossos olhos se voltam ao mercado de trabalho e, por vezes, o que conseguimos não são sonoros “não” e nem “sim”, são indiferenças, como aquela cara carrancuda que nem faz questão de levantar os olhos para te olhar e que diz, mesmo não dizendo, “e daí que te formou, o que tenho a ver com isso?”. E machuca saber que o discurso que nos era passado quando crianças,se transforma num uníssono “ninguém tem nada a ver com isso”.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A vida sem TV

Ligada às tecnologias, sempre me perguntava como era possível alguém, um dia, ter vivido, sem energia elétrica, TV ou internet. Realmente, energia elétrica e internet para mim são fundamentais, até porque ainda não me animei a fazer o teste do “deixa elas pra lá”, mas TV tem sido uma inconstante na minha vida. Não porque eu tenha feito alguma promessa do tipo “se eu ganhar na mega, paro de assistir TV’, até porque não seria nenhum sacrifício, estaria ocupada demais torrando meu dinheiro. Longe de qualquer dívida ou promessa, aos poucos fui desligando ela da minha vida. Chegar em casa cansada do trabalho foi um dos motivos principais. Tomar banho, jantar, estudar e organizar minhas coisas pessoais consomem muito do meu tempo. Outro motivo é a programação. Não tenho mais ânimo de ouvir falar em tanta roubalheira, tragédia, desastre e guerra. Tudo bem que é o        que acontece no momento, mas estou na vibe de para o mundo que quero descer. Isso tem me feito um ser desconexo com as novidades, mas um tanto mais feliz. Por exemplo, quando me perguntaram se estava acompanhando o Egito, logo indaguei “hã, Egito? Onde?”. Até mesmo o 11 de setembro soou para mim como grande novidade, quando cheguei na faculdade e todos sabiam do ocorrido, menos eu. Nessa época o que eu fiz foi chegar em casa e correr para a televisão. Mas hoje, sinceramente, eu cansei. Dane-se se estou uma alienada televisiva. Dane-se se não estou sabendo de tudo o que se passa, prefiro ficar conhecedora dos fatos, assim, de relance. Pelo menos até eu não mudar de ideia.
Meus dias de intolerância zero...

Confesso que, por muitas vezes, quis abandonar meu estereótipo “familiar” de intolerante. E tentei e continuo tentando. A verdade é que “nos dias que eu não estou boa” sai de perto. Existem coisas que me deixam, digamos, possuídas: desrespeito, traição, mesquinharia e “coitadice”.
Quando julgo desrespeito conjugo com falsidade. Falsas, para mim, são pessoas desrespeitosas (e tenho dito). Ninguém tem obrigação de gostar de mim ou de quem quer que seja, mas ninguém tem o direito de prejudicar-me por isso (assim tão de graça). Lembram do texto que escrevi sobre a relação de amor e ódio que sinto por algumas pessoas? Sim, eu não gosto de todo mundo, mas minhas ameaças e meus desejos de maldade só povoam meus pensamentos. Afinal, ninguém consegue ter pensamento bonzinho sobre quem não gosta. Mas fazer o mal, assim, eu não faria.
Traição segue a linha do “ninguém tem obrigação de gostar de mim” e trair uma relação amorosa, família ou amizade não está com nada. A vantagem de ser honesto com os demais é a mesma vantagem de ser honesto com os próprios sentimentos e noites bem dormidas, com a consciência tranquilinha, tranquilinha. Porque, não adianta, quer queira ou não, o cara do mal sempre apanha no final.
Alguns possuem mais, outros menos, mas viver feliz e aproveitar algumas regalias não faz mal a ninguém, basta equilibrar as coisas. Aqui está o repúdio à “coitadice” Não gosto quando os que vivem bem, não necessariamente com muita grana, abusam da mesquinharia, esquecendo que outros dispõem de tão pouco ou quase nada. Quando se aproveitam de benefícios em detrimento de outrem, quando simulam suas decadências em desrespeito àqueles que realmente necessitam.
Tudo bem, tudo bem, repúdio à minha intolerância, mas, queridos, reconheçam, sempre foi por uma boa causa e prometo me esforçar para bani – la da minha listinha de defeitos.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Deus me livre...

Aos 8 anos de idade vivi um dos momentos mais complicados da minha vida: mudei de cidade. Sim, mudar pode parecer algo bom e necessário, mas naquela época não foi. Talvez poucos saibam disso, nem mesmo minha família. Lembro, como hoje, do quarto escuro dos meus pais e do meu corpo cansado envolto pelos lençóis floridos da cama de casal e com os olhos mais emaranhados que qualquer ressaca. E eu chorava desesperadamente, com um soluço que debatia com o travesseiro, na esperança inútil de ser abafado. Mas eu ouvia e isso era o que importava. Estar com 8 anos e não ver alegria na vida não é algo bom para uma criança e eu sei que eu queria morrer naquele minuto (sem exagero). E quis sumir todas as outras vezes em que espiava pela frestinha da janela as crianças brincando no quintal de suas casas, enquanto eu criava meus amigos imaginários. A intenção não é contar um drama não superado ou fazer com que sintam pena ou perguntem “o que há de errado com essa menina?”, definitivamente a intenção não é essa. Afinal, muitos anos se passaram e a tentativa é superar e simplesmente superar. O interesse é demarcar o singelo modo de vida no interior. Sim, porque chorava todas as noites de saudade de brincar na rua, correr na chuva. Saudade das minhas canelas finas e batidas; do cheiro de Neutrox no meu cabelo (sim, porque no interior não havia grandes redes de supermercados, apenas um bolichinho na esquina de casa e consequentemente Neutrox lotava as prateleiras). E nessa saudade doída, lembro de certa vez, imponente, quando indaguei minhas novas colegas de escola “Vocês conhecem a cidade de Deus me Livre*? Lá é muito bom, eu brincava na rua. Eu pulava muro. Eu corria na terra. Vocês não tem vontade de morar lá?” Porque na minha inocência, todos poderiam ir a Deus me livre, fazer a vida e viver feliz para sempre. E porque não? Mal sabia eu, que riam de mim e imaginavam como seria a vida num lugar assim “sem cinema, sem lanchonete, sem teatro e tão longe de tudo. Eu morar lá? Deus me livre”? E eu que nunca quis que Deus me livrasse daquilo tudo.


* Nome fictício.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A necessidade de falar...

Nunca tive receio ao falar sobre os meus períodos depressivos. Uma porque me sentia bem em desabafar, outra porque era uma maneira de me fazer compreendida e outra porque foi a partir desses desabafos que percebi as pessoas que realmente me querem bem na vida. No mais, dane-se.
A primeira vez que entrei num consultório de psicologia me senti à vontade. Pode? Por mais que era com espanto que ouvia os comentários alheios, aquele lugar era uma fortaleza, como se todos os meus problemas ficassem lá, só lá. A primeira vez que desisti de um consultório de psicologia, foi exatamente quando fiquei frente a frente com a realidade. E essa aparecia carrancuda e me dizia “é sou eu!!”. O que eu fiz? Eu fugi! E tentei e fugi tantas outras vezes. Mas a realidade é um bicho danado, ela nos persegue. Até fica escondidinha, mas sempre à espreita. E quanto mais fui encarando a realidade, mais fiquei com medo e corajosa ao mesmo tempo, por maior que seja o conflito. Até que um dia a realidade passou de um bicho ameaçador a uma conhecida bondosa. Conhecida sim, porque ela ainda não é minha melhor amiga. Ela até tenta, mas eu sou avessa às suas investidas. Eu ainda fujo quando sinto medo, mesmo que com menor freqüência. Eu ainda preciso falar quando aquela angústia me sufoca, mas desse mal não tenho mais medo, muito embora tudo fique entre as quatro paredes de um consultório.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

“Casa de ferreiro, espeto de pau...”

Certa vez exercitando uma tabela de temporalidade documental, lembro da professora que dizia que deveríamos nos desapegar de certos documentos pessoais. Quando ela falou aquilo, foi um auê na sala “e nossas lembranças?”, “isso faz parte de nossa história” e demais devaneios. Ouvir aquilo doeu como um tapa no rosto, como uma enxurrada que devasta nossa frágil memória. Sem exagero, foi um choque coletivo. O que me confortava naquele momento era que aquilo era apenas um exercício e que nunca (eu disse nunca) aplicaria na minha “vida documentada”. Por mais que tudo esteja caprichosamente guardado (pelas mãos da minha mãe), sei que a maioria dos convites de aniversário, lembrancinhas, cartõezinhos de escola não fazem mais sentido, até porque não lembro mais que eles existem, a não ser quando insisto em procurar uma foto daquele amigo que não vejo há 15 anos ou daquela festa que reuniu todos os parentes no ano novo. Sim, porque lá em casa a caixa de lembranças acondiciona tudo o que diz respeito a tempo passado, mesmo que o tempo passado não diga mais respeito à gente. E quando penso que há tanta velharia, papel desbotado e cartões amassados que ocupam espaços em vão, eu teimo a me emocionar e dizer que são apenas lembranças e que, quem sabe um dia, eu volte a querer vivenciá-las. Mesmo que esse dia nunca chegue.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Escrevo essas palavras para quem me faz sentir viva, quem faz com que eu sinta que toda novo dia vale a pena e que tudo é possível quando se planeja viver em paz e com muito amor....


Não sei descrever tão bem sobre o amor, como fazem os poetas. Ora, não é preciso, basta senti-lo. Basta que tu me digas uma palavra para me conquistar...Basta que tu existas para me encantar... Basta que eu viva para te amar!!!


Te amo muito, muito, muitãooo!!!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O poder da vírgula

Lembro bem dos tempos da escola, das aulas de redação e da dificuldade com as vírgulas. Uma dificuldade que persiste, diga-se de passagem. A vírgula quando não empregada corretamente é um perigo tremendo. Não sou especialista no assunto e nem pretendo discutir regras que não levariam a nada, o que realmente quero é discutir o impacto que esse sinalzinho tem na nossa vida. Nas séries iniciais lembro da professora dizendo “usem a vírgula nas pausas, quando vocês estiverem cansados da leitura” e essa “regrinha básica” era utilizada por todas as educadoras primárias. Na faculdade, lembro da professora comentando “use frases curtas, evite o máximo as vírgulas, isso torna o texto cansativo”. No cursinho preparatório, o professor enloquecia: “Esqueçam tudo o que ouviram falar sobre vírgulas. Não há regras, há bom senso!!!!”. E a saga tornava-se interminável. Até pensei em criar minhas próprias regras, mas há de se convir que bateria de frente com tudo o que já foi cultuado a respeito. Então decidi assumir que não sei usar vírgulas de uma maneira 100% correta, mas tento fazer meus textos, diálogos, monólogos da melhor maneira possível e compreensível. E assim é com a vida. Por vezes, utilizamos de tantas vírgulas que nosso viver parece estar condicionado a inúmeras e repetidas pausas, como aquele carro enguiçado que não anda, exceto por aquele empurrão. Usamos as vírgulas da vida como um tempo que demora a passar, que finge resolver um problema quando simplesmente fugimos dele. E usamos as vírgulas da vida quando fingimos não ver ou ouvir o que está ao nosso redor, para simplesmente ignorarmos que a vida não tem qualquer outro ponto, a não ser as suas reticências ...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Lembro das aulas de antropologia onde tinhamos a missão de estranhar o familiar. Tarefa complicada. Estranhar o diferente e exótico para mim sempre foi bastante animador. Estranhar não no sentido de desprezar, mas no sentido de reconhecer no outro características que diferem da nossa realidade. Por exemplo, quando vejo uma muçulmana, tenho vontade de puxar assunto. Um assunto despretensioso, como aqueles na fila do banco ou com o cara ao lado no ônibus. Tenho vontade de saber como ela vive, o que ela come, a primeira coisa que faz pela manhã. Como ela se sente, o que imagina, o que pensa da vida. Vontade que ela me convide para um chá ou uma festa só para eu observar. Só para eu sentir o que é estar naquele mundo nem que seja por dois minutos. Isso acontece também com os ciganos, os mórmons, os judeus etc. Mas estranhar o familiar é diferente. Primeiro, obviamente, porque o familiar não é o “outro”. Ele pode ter seus hábitos particulares, mas ele continua não sendo o “outro”. Segundo, porque ele passa despercebido às nossas vistas. Mas tentei, tento todos os dias. Não porque faça parte do meu trabalho, não porque tenha obrigação, mas pelo simples fato que essa curiosidade me aguça, me faz querer conhecer o mundo e todas as suas semelhanças e diferenças. Então, vamos à prática.

Viver a vida inteira em um mesmo estado, muito mais que fazer no sentir parte dele, adquirir um sotaque peculiar, hábitos alimentares e algumas coisas mais, faz com que não percebamos sutilezas, diferenças e gestos que nos diferem dos demais. Sabemos que somos diferentes, mas dificilmente conseguimos nos colocar no lugar dos demais para realmente entender a dimensão que faz com que sejamos os outros. Esses outros que usam bombacha, que frequentam CTG’s, que gostam de gineteadas. A vida inteira sobre o mesmo solo, faz com que não percebamos com espanto aquele gaúcho de bombacha larga que atravessa a rua. Convenhamos, isso é tão comum por aqui. Mas eu tenho feito isso, tenho tentado encarar o desafio de estranhar o familiar. E observo, o jeito que aquele gauchinho anda, tão criança, tão inocente, tão cheio de si. E imagino o que pensa de manhã quando acorda, o que come, o que escuta, o que faz dele ser assim tão diferente. E por instantes eu consigo, mas basta eu abrir os olhos e tudo volta a ser como era antes. Eis o encanto de "ser, sentir e fazer antropologia".

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quem me conhece sabe que nutro uma verdadeira relação de amor e ódio por algumas pessoas. Amor porque sou capaz de amar incondicionalmente, passando por cima de defeitos e convenções. Ódio porque detesto ser julgada ou desrespeitada e é nesse momento que meu lado ruim impera. Não que eu seja pessoa má, eu não consigo ser. Por mais que eu saiba que o mundo não é dos bonzinhos, as minhas ameaças ficam só no imaginário. Costumo dizer que mau mesmo é aquele que não pensa, ele faz e eu só tenho pensado. E o que eu quero dizer com tudo isso? Quero dizer que num dos momentos mais difíceis da minha vida, eu reconheci as pessoas que realmente me amam e, de uma maneira dolorosa, eu digo que são poucas, muito poucas. Nessa hora tentei compreender o porquê de acreditarem que eu não choro, que eu não passo noites em claro, que eu não tenho problemas, afinal eu sempre tive tudo. Eu nunca passei fome, fiquei de recuperação apenas uma vez, passei no vestibular, ora o que mais eu ia querer? Eu não sei, talvez um pouco mais de carinho, de atenção, de análise. Talvez eu só quisesse coisas que o dinheiro ou o estudo não conseguem. Talvez eu só quisesse que o mundo soubesse que eu existia. Mas isso era muito para alguém que sempre teve de tudo. E um dia me perguntaram: E nessas horas você não teve vontade de acabar com tudo? Sim, eu tive, muitas vezes. E por que não fez? Porque mal mesmo é aquele que faz e eu só pensava.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Atendendo a pedidos, hoje vou tratar de mais um assunto polêmico: o mais novo sonho de consumo das mulheres.
Várias amigas já me confidenciaram que desejam ter amigos gays! Sim, porque amigos gays não são amigas revestidas num corpo de homem. São muito mais que isso, eles têm exatamente aquilo que esperamos em nossos parceiros: sensibilidade e bravura! Sensibilidade porque respeitam nossos incansáveis dias de TPM, sensibilidade porque entendem nosso choro contido, sensibilidade porque compreendem quando nos derretemos pelo Cauã Reymond ou Gianecchini e bravura porque não escondem suas lágrimas e acima de tudo, porque sabem “a dor e a delícia de ser o que é”, quando o mundo se infla de preconceitos e atitudes violentas. Talvez, ainda nos chocamos quando aquele amigo de longa data resolve assumir seu mundo cor de rosa, mas saibam meus queridos, deveria ser muito mais chocante continuarmos a tolerar um mundo tão cheio de incompreensão e amargura e tão carente de ternura.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O post de hoje é um daqueles clássicos temas que povoam nossas mentes férteis e femininas e que nos perseguem até o momento em que abrimos o editor de texto e resolvemos escrever sobre um grande enigma da humanidade. E o título? Bem, um tanto sugestivo: “Não basta ter bunda, tem que saber usar."

Cansei de querer compreender a relação homem-bunda, bunda-homem e pior, cansei de questionar o porquê uma bunda vale mais do que inúmeros títulos universitários. Nessas horas compreendo porque a expressão “nasceu com a bunda virada pra lua” está intimamente ligada à questão de sorte. Ora, não há dúvidas, um bumbum avantajado, redondinho e bonito pode lhe render uma gorda poupança, com perdão do trocadilho, enquanto que um título universitário pode lhe render o dinheirinho pra pagar as contas no final do mês e um trocadinho pra investir, quem sabe, no financiamento daquele carrinho que não é bem o que você quer, mas o que pode pagar. Não questiono o uso de um ou outro atributo. O fato é que cérebros não vendem revistas. Você não verá a Playboy com a chamada “Uiii delícia....Musa da Copa mostra tudinho pra você” e um baita cérebro na capa. Não, você não verá. E muito menos verá “Cérebro da musa da copa em versão 3D”. Cérebros existem para que alguém diga “Nossa, aquela menina é um crânio”. E mais uma vez eu digo, crânio não vende revista, ao menos, não aquelas que você dará autógrafos e tenha além do cachê, participação nos lucros. Mas antes que vocês saiam por aí mostrando o bumbum pra todo mundo, vai logo um aviso: não basta ter bunda, tem que saber usar. Do contrário, mulherada, continuem com seus cérebros que, asseguro, já está de muito bom tamanho.