Lembro das aulas de antropologia onde tinhamos a missão de estranhar o familiar. Tarefa complicada. Estranhar o diferente e exótico para mim sempre foi bastante animador. Estranhar não no sentido de desprezar, mas no sentido de reconhecer no outro características que diferem da nossa realidade. Por exemplo, quando vejo uma muçulmana, tenho vontade de puxar assunto. Um assunto despretensioso, como aqueles na fila do banco ou com o cara ao lado no ônibus. Tenho vontade de saber como ela vive, o que ela come, a primeira coisa que faz pela manhã. Como ela se sente, o que imagina, o que pensa da vida. Vontade que ela me convide para um chá ou uma festa só para eu observar. Só para eu sentir o que é estar naquele mundo nem que seja por dois minutos. Isso acontece também com os ciganos, os mórmons, os judeus etc. Mas estranhar o familiar é diferente. Primeiro, obviamente, porque o familiar não é o “outro”. Ele pode ter seus hábitos particulares, mas ele continua não sendo o “outro”. Segundo, porque ele passa despercebido às nossas vistas. Mas tentei, tento todos os dias. Não porque faça parte do meu trabalho, não porque tenha obrigação, mas pelo simples fato que essa curiosidade me aguça, me faz querer conhecer o mundo e todas as suas semelhanças e diferenças. Então, vamos à prática.
Viver a vida inteira em um mesmo estado, muito mais que fazer no sentir parte dele, adquirir um sotaque peculiar, hábitos alimentares e algumas coisas mais, faz com que não percebamos sutilezas, diferenças e gestos que nos diferem dos demais. Sabemos que somos diferentes, mas dificilmente conseguimos nos colocar no lugar dos demais para realmente entender a dimensão que faz com que sejamos os outros. Esses outros que usam bombacha, que frequentam CTG’s, que gostam de gineteadas. A vida inteira sobre o mesmo solo, faz com que não percebamos com espanto aquele gaúcho de bombacha larga que atravessa a rua. Convenhamos, isso é tão comum por aqui. Mas eu tenho feito isso, tenho tentado encarar o desafio de estranhar o familiar. E observo, o jeito que aquele gauchinho anda, tão criança, tão inocente, tão cheio de si. E imagino o que pensa de manhã quando acorda, o que come, o que escuta, o que faz dele ser assim tão diferente. E por instantes eu consigo, mas basta eu abrir os olhos e tudo volta a ser como era antes. Eis o encanto de "ser, sentir e fazer antropologia".
Viver a vida inteira em um mesmo estado, muito mais que fazer no sentir parte dele, adquirir um sotaque peculiar, hábitos alimentares e algumas coisas mais, faz com que não percebamos sutilezas, diferenças e gestos que nos diferem dos demais. Sabemos que somos diferentes, mas dificilmente conseguimos nos colocar no lugar dos demais para realmente entender a dimensão que faz com que sejamos os outros. Esses outros que usam bombacha, que frequentam CTG’s, que gostam de gineteadas. A vida inteira sobre o mesmo solo, faz com que não percebamos com espanto aquele gaúcho de bombacha larga que atravessa a rua. Convenhamos, isso é tão comum por aqui. Mas eu tenho feito isso, tenho tentado encarar o desafio de estranhar o familiar. E observo, o jeito que aquele gauchinho anda, tão criança, tão inocente, tão cheio de si. E imagino o que pensa de manhã quando acorda, o que come, o que escuta, o que faz dele ser assim tão diferente. E por instantes eu consigo, mas basta eu abrir os olhos e tudo volta a ser como era antes. Eis o encanto de "ser, sentir e fazer antropologia".
Nenhum comentário:
Postar um comentário