quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A vida é algo tão tênue. É como aquele fiozinho que se você puxa um pouquinho mais arrebenta. E a gente cuida tanto para que isso retarde a acontecer. É estranho um dia perceber que as pessoas partem e não porque mudaram de cidade ou viajaram de férias. Partem porque chegou sua hora, partem porque a vida não é para sempre. Hoje quando vi aquele senhor saindo em disparada para o velório do amigo, pensei: “Como um dia vamos encarar esta realidade que hoje parece tão distante?” Eu não sei como seria, mas quem sabe se pareça com a história da menina que viu o avô partir tão cedo. Ela nunca entendeu e até hoje não entende, mas sente como se ele estivesse por aí, presente, mas não visível. Talvez para os outros, aquele herói não fosse tão significativo, era só mais um que se perde na multidão. Mas para ela não. Foi ele que a protegeu nos dias em que lhe faltou abrigo. Foi ele que a ensinou a orar pelo pai que viajava. Foi ele que a segurava no colo enquanto contava histórias. E foi quando ele partiu que os churrascos de final de semana, a família reunida e a correria no quintal também se foram. Foi quando ele partiu que essa menina finalmente entendeu o que é lembrança. Aquela coisa que às vezes se confunde com saudade, com aperto no peito, com a vontade de abraçar aquela foto como se fosse de carne e osso e com aquelas lágrimas que insistem em surgir, mesmo quando as pessoas dizem que gente grande não chora.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Mala pronta
Hoje parei para observar minha vida e como ela tem sido ao longo dos anos. Confesso que nada mal, não há porque me queixar, mas por outro lado é uma vida de não pertencimento. Quando vejo as pessoas comentarem das suas aquisições imobiliárias, sinto uma pontinha de inveja. Inveja não porque elas possuem os recursos necessários para a compra, mas porque elas finalmente têm um lar. Não que eu não tenha um, mas ultimamente minha vida se resume num porta- malas de carro. É um fazer e desfazer de mala quase que cotidiano. Não, não sou uma especialista em comércio exterior e nem estou negociando com grandes acionistas em Dubai. Simplesmente estou de lá para cá,de cá para lá numa esperança doida de um dia fixar minha felicidade em algum lugar. E não é porque adoro esse vai e vem, mas porque, sabe-se lá, a vida quis assim. E não é de agora. Não é de agora que minha vida segue encaixotada em embalagens de vinho ou da TV a cores. Não é de agora que pego malas emprestadas e saio de mochila nas costas. E não é de agora que essa sensação de não pertencimento faz parte do meu eu. Sempre questionei muito minha família por nunca estar em lugar algum. Por ter tantos amigos e no fundo não ter nenhum. Quando a amizade estava consolidada era hora de partir. E o partir era o que mais machucava e machuca até hoje. Lembro das vezes que chorei no cantinho e minha família nunca compreendia, afinal a mudança geralmente era vista como algo bom, era uma oportunidade de crescer. De fato é, mas só é quando estamos cientes disso e eu não estava. A única consciência que tinha era que meus amigos seriam revisitados talvez depois de 10 anos ou nem isso, que não valia a pena pintar a parede do meu quarto de lilás porque tão logo ele não seria mais meu. Não quero me queixar mais uma vez ou dizer que tudo foi de todo ruim. Não, longe disso. O que eu quero, de verdade, é sonhar e esperar pelo dia que eu tenha um lugar, um cantinho que eu sinta como que verdadeiramente meu. O cantinho para que eu possa voltar depois de desfazer as malas e alimentar das lembranças dos doces dias de férias.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Quando é hora de crescer...

Não sei é um medo coletivo ou particular, mas tenho medo de um dia “virar gente grande”. É aquela história “você sabe o que vai ser quando crescer?”. Lembro de uma conhecida, com o dobro da minha altura, que dizia “vou ser gigante” e olha que ela nem ficou tão gigante assim. O fato é que se um dia sabemos, uma dia descontruímos as nossas ideias. Não porque não deram certo, mas porque não foram exatamente como imaginávamos. Talvez foram muito além das expectativas, talvez tomaram rumos inesperados.
O motivo de minhas idas ao psicólogo foi exatamente esse: “reconhecer a vida adulta, encarar o medo e as responsabilidades”. Confesso que não é tarefa fácil. Talvez por ter me privado de algumas coisas boas da infância e adolescência, tenho vivenciado um ‘lado juvenil tardio’. Por vezes, choro como criança, me rebelo como adolescente e não aceito as mudanças que só os adultos vivenciam. Mas um dia as coisas surgem e você diz “tá, não sou mais criança e nem adolescente”. Um dia, você não quer mais viver sozinha. Um dia você assume novos desafios pois almeja ter sua família, seu negócio próprio. Um dia você acorda e chora porque finalmente descobre que seus dias de criança acabaram, seus pais não podem resolver tudo por você e a hora é de crescer. Um dia você acorda e vê que os pés de galinha já estão mais evidentes, você percebe que acabou de encomendar o anti-sinais e que aquele tic-tac de bolinhas não combina mais com seu cabelo. Prefiro não mais encarar mais com tristeza, decidi que não quero mais chorar. Sei que há situações que nos fazem amadurecer, que fortalecem nossos vínculos e relações e que se nossas asas crescem é para que voemos mais alto, ladeados pelas pessoas que conosco compartilham o amor , respeito e a vontade de encarar a vida como ela realmente é..