Costumo dizer que a faculdade tem seu antes, durante e depois, como praticamente tudo nessa vida. É engraçado como esses estágios acontecem. No tempo de escola o comum era ouvir “estuda menina para ser alguém na vida” e assim ia eu com a mochilinha verde (maior que eu) nas costas, meu estojo de girafinha e meus cadernos caprichosamente encadernados. Não que eu fosse uma exímia estudante, eu não gostava de passar horas a fio lendo ou me dedicando aos deveres de casa, embora adorasse aprender e ia bem no colégio, sim senhor. O que eu gostava mesmo era de dizer “estou estudando, porque quero ser alguém na vida”. Pudera, era o discurso do momento.
No ensino médio, por sua vez, os professores não mais usavam o método do “ser alguém na vida”, era o momento da disciplina, “do monstro da faculdade”. “Pessoal, cheguem cedo, se dediquem, ouçam seus professores, a universidade não é moleza não”. E o tempo ia passando, o 3º ano chegando e o misto de ansiedade e “pavorzinho” ia se aproximando.
Passado o vestibular, compreendi que universidade pode ser moleza sim e que os professores não são os carrascos pintados no ensino médio. A diferença é que tudo depende da gente: seguir, parar ou desistir. E não há mais reuniões com os pais a cada bimestre para discutir o vermelho do boletim. É o momento que a gente se acha adulto, quando exibimos nossas pastas bordadas com o nome do curso como se fosse um troféu, quando nos abarrotamos nos exprimidos ônibus universitários. Mas quando chega o fim, voltamos à sensação de fragilidade, de crianças indefesas e nos perguntamos “pronto, estudei e agora quem serei eu nessa vida?” e descobrimos que teremos de nos dedicar a ser sempre mais, para ter mais, para conseguir mais.
Passada a fase universitária, nossos olhos se voltam ao mercado de trabalho e, por vezes, o que conseguimos não são sonoros “não” e nem “sim”, são indiferenças, como aquela cara carrancuda que nem faz questão de levantar os olhos para te olhar e que diz, mesmo não dizendo, “e daí que te formou, o que tenho a ver com isso?”. E machuca saber que o discurso que nos era passado quando crianças,se transforma num uníssono “ninguém tem nada a ver com isso”.