terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os “estágios” da faculdade...

Costumo dizer que a faculdade tem seu antes, durante e depois, como praticamente tudo nessa vida. É engraçado como esses estágios acontecem. No tempo de escola o comum era ouvir “estuda menina para ser alguém na vida” e assim ia eu com a mochilinha verde (maior que eu) nas costas, meu estojo de girafinha e meus cadernos caprichosamente encadernados. Não que eu fosse uma exímia estudante, eu não gostava de passar horas a fio lendo ou me dedicando aos deveres de casa, embora adorasse aprender e ia bem no colégio, sim senhor. O que eu gostava mesmo era de dizer “estou estudando, porque quero ser alguém na vida”. Pudera, era o discurso do momento.
No ensino médio, por sua vez, os professores não mais usavam o método do “ser alguém na vida”, era o momento da disciplina, “do monstro da faculdade”. “Pessoal, cheguem cedo, se dediquem, ouçam seus professores, a universidade não é moleza não”. E o tempo ia passando, o 3º ano chegando e o misto de ansiedade e “pavorzinho” ia se aproximando.
Passado o vestibular, compreendi que universidade pode ser moleza sim e que os professores não são os carrascos pintados no ensino médio. A diferença é que tudo depende da gente: seguir, parar ou desistir. E não há mais reuniões com os pais a cada bimestre para discutir o vermelho do boletim. É o momento que a gente se acha adulto, quando exibimos nossas pastas bordadas com o nome do curso como se fosse um troféu, quando nos abarrotamos nos exprimidos ônibus universitários. Mas quando chega o fim, voltamos à sensação de fragilidade, de crianças indefesas e nos perguntamos “pronto, estudei e agora quem serei eu nessa vida?” e descobrimos que teremos de nos dedicar a ser sempre mais, para ter mais, para conseguir mais.
Passada a fase universitária, nossos olhos se voltam ao mercado de trabalho e, por vezes, o que conseguimos não são sonoros “não” e nem “sim”, são indiferenças, como aquela cara carrancuda que nem faz questão de levantar os olhos para te olhar e que diz, mesmo não dizendo, “e daí que te formou, o que tenho a ver com isso?”. E machuca saber que o discurso que nos era passado quando crianças,se transforma num uníssono “ninguém tem nada a ver com isso”.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A vida sem TV

Ligada às tecnologias, sempre me perguntava como era possível alguém, um dia, ter vivido, sem energia elétrica, TV ou internet. Realmente, energia elétrica e internet para mim são fundamentais, até porque ainda não me animei a fazer o teste do “deixa elas pra lá”, mas TV tem sido uma inconstante na minha vida. Não porque eu tenha feito alguma promessa do tipo “se eu ganhar na mega, paro de assistir TV’, até porque não seria nenhum sacrifício, estaria ocupada demais torrando meu dinheiro. Longe de qualquer dívida ou promessa, aos poucos fui desligando ela da minha vida. Chegar em casa cansada do trabalho foi um dos motivos principais. Tomar banho, jantar, estudar e organizar minhas coisas pessoais consomem muito do meu tempo. Outro motivo é a programação. Não tenho mais ânimo de ouvir falar em tanta roubalheira, tragédia, desastre e guerra. Tudo bem que é o        que acontece no momento, mas estou na vibe de para o mundo que quero descer. Isso tem me feito um ser desconexo com as novidades, mas um tanto mais feliz. Por exemplo, quando me perguntaram se estava acompanhando o Egito, logo indaguei “hã, Egito? Onde?”. Até mesmo o 11 de setembro soou para mim como grande novidade, quando cheguei na faculdade e todos sabiam do ocorrido, menos eu. Nessa época o que eu fiz foi chegar em casa e correr para a televisão. Mas hoje, sinceramente, eu cansei. Dane-se se estou uma alienada televisiva. Dane-se se não estou sabendo de tudo o que se passa, prefiro ficar conhecedora dos fatos, assim, de relance. Pelo menos até eu não mudar de ideia.
Meus dias de intolerância zero...

Confesso que, por muitas vezes, quis abandonar meu estereótipo “familiar” de intolerante. E tentei e continuo tentando. A verdade é que “nos dias que eu não estou boa” sai de perto. Existem coisas que me deixam, digamos, possuídas: desrespeito, traição, mesquinharia e “coitadice”.
Quando julgo desrespeito conjugo com falsidade. Falsas, para mim, são pessoas desrespeitosas (e tenho dito). Ninguém tem obrigação de gostar de mim ou de quem quer que seja, mas ninguém tem o direito de prejudicar-me por isso (assim tão de graça). Lembram do texto que escrevi sobre a relação de amor e ódio que sinto por algumas pessoas? Sim, eu não gosto de todo mundo, mas minhas ameaças e meus desejos de maldade só povoam meus pensamentos. Afinal, ninguém consegue ter pensamento bonzinho sobre quem não gosta. Mas fazer o mal, assim, eu não faria.
Traição segue a linha do “ninguém tem obrigação de gostar de mim” e trair uma relação amorosa, família ou amizade não está com nada. A vantagem de ser honesto com os demais é a mesma vantagem de ser honesto com os próprios sentimentos e noites bem dormidas, com a consciência tranquilinha, tranquilinha. Porque, não adianta, quer queira ou não, o cara do mal sempre apanha no final.
Alguns possuem mais, outros menos, mas viver feliz e aproveitar algumas regalias não faz mal a ninguém, basta equilibrar as coisas. Aqui está o repúdio à “coitadice” Não gosto quando os que vivem bem, não necessariamente com muita grana, abusam da mesquinharia, esquecendo que outros dispõem de tão pouco ou quase nada. Quando se aproveitam de benefícios em detrimento de outrem, quando simulam suas decadências em desrespeito àqueles que realmente necessitam.
Tudo bem, tudo bem, repúdio à minha intolerância, mas, queridos, reconheçam, sempre foi por uma boa causa e prometo me esforçar para bani – la da minha listinha de defeitos.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Deus me livre...

Aos 8 anos de idade vivi um dos momentos mais complicados da minha vida: mudei de cidade. Sim, mudar pode parecer algo bom e necessário, mas naquela época não foi. Talvez poucos saibam disso, nem mesmo minha família. Lembro, como hoje, do quarto escuro dos meus pais e do meu corpo cansado envolto pelos lençóis floridos da cama de casal e com os olhos mais emaranhados que qualquer ressaca. E eu chorava desesperadamente, com um soluço que debatia com o travesseiro, na esperança inútil de ser abafado. Mas eu ouvia e isso era o que importava. Estar com 8 anos e não ver alegria na vida não é algo bom para uma criança e eu sei que eu queria morrer naquele minuto (sem exagero). E quis sumir todas as outras vezes em que espiava pela frestinha da janela as crianças brincando no quintal de suas casas, enquanto eu criava meus amigos imaginários. A intenção não é contar um drama não superado ou fazer com que sintam pena ou perguntem “o que há de errado com essa menina?”, definitivamente a intenção não é essa. Afinal, muitos anos se passaram e a tentativa é superar e simplesmente superar. O interesse é demarcar o singelo modo de vida no interior. Sim, porque chorava todas as noites de saudade de brincar na rua, correr na chuva. Saudade das minhas canelas finas e batidas; do cheiro de Neutrox no meu cabelo (sim, porque no interior não havia grandes redes de supermercados, apenas um bolichinho na esquina de casa e consequentemente Neutrox lotava as prateleiras). E nessa saudade doída, lembro de certa vez, imponente, quando indaguei minhas novas colegas de escola “Vocês conhecem a cidade de Deus me Livre*? Lá é muito bom, eu brincava na rua. Eu pulava muro. Eu corria na terra. Vocês não tem vontade de morar lá?” Porque na minha inocência, todos poderiam ir a Deus me livre, fazer a vida e viver feliz para sempre. E porque não? Mal sabia eu, que riam de mim e imaginavam como seria a vida num lugar assim “sem cinema, sem lanchonete, sem teatro e tão longe de tudo. Eu morar lá? Deus me livre”? E eu que nunca quis que Deus me livrasse daquilo tudo.


* Nome fictício.