Deus me livre...
Aos 8 anos de idade vivi um dos momentos mais complicados da minha vida: mudei de cidade. Sim, mudar pode parecer algo bom e necessário, mas naquela época não foi. Talvez poucos saibam disso, nem mesmo minha família. Lembro, como hoje, do quarto escuro dos meus pais e do meu corpo cansado envolto pelos lençóis floridos da cama de casal e com os olhos mais emaranhados que qualquer ressaca. E eu chorava desesperadamente, com um soluço que debatia com o travesseiro, na esperança inútil de ser abafado. Mas eu ouvia e isso era o que importava. Estar com 8 anos e não ver alegria na vida não é algo bom para uma criança e eu sei que eu queria morrer naquele minuto (sem exagero). E quis sumir todas as outras vezes em que espiava pela frestinha da janela as crianças brincando no quintal de suas casas, enquanto eu criava meus amigos imaginários. A intenção não é contar um drama não superado ou fazer com que sintam pena ou perguntem “o que há de errado com essa menina?”, definitivamente a intenção não é essa. Afinal, muitos anos se passaram e a tentativa é superar e simplesmente superar. O interesse é demarcar o singelo modo de vida no interior. Sim, porque chorava todas as noites de saudade de brincar na rua, correr na chuva. Saudade das minhas canelas finas e batidas; do cheiro de Neutrox no meu cabelo (sim, porque no interior não havia grandes redes de supermercados, apenas um bolichinho na esquina de casa e consequentemente Neutrox lotava as prateleiras). E nessa saudade doída, lembro de certa vez, imponente, quando indaguei minhas novas colegas de escola “Vocês conhecem a cidade de Deus me Livre*? Lá é muito bom, eu brincava na rua. Eu pulava muro. Eu corria na terra. Vocês não tem vontade de morar lá?” Porque na minha inocência, todos poderiam ir a Deus me livre, fazer a vida e viver feliz para sempre. E porque não? Mal sabia eu, que riam de mim e imaginavam como seria a vida num lugar assim “sem cinema, sem lanchonete, sem teatro e tão longe de tudo. Eu morar lá? Deus me livre”? E eu que nunca quis que Deus me livrasse daquilo tudo.
* Nome fictício.
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