Mala pronta
Hoje parei para observar minha vida e como ela tem sido ao longo dos anos. Confesso que nada mal, não há porque me queixar, mas por outro lado é uma vida de não pertencimento. Quando vejo as pessoas comentarem das suas aquisições imobiliárias, sinto uma pontinha de inveja. Inveja não porque elas possuem os recursos necessários para a compra, mas porque elas finalmente têm um lar. Não que eu não tenha um, mas ultimamente minha vida se resume num porta- malas de carro. É um fazer e desfazer de mala quase que cotidiano. Não, não sou uma especialista em comércio exterior e nem estou negociando com grandes acionistas em Dubai. Simplesmente estou de lá para cá,de cá para lá numa esperança doida de um dia fixar minha felicidade em algum lugar. E não é porque adoro esse vai e vem, mas porque, sabe-se lá, a vida quis assim. E não é de agora. Não é de agora que minha vida segue encaixotada em embalagens de vinho ou da TV a cores. Não é de agora que pego malas emprestadas e saio de mochila nas costas. E não é de agora que essa sensação de não pertencimento faz parte do meu eu. Sempre questionei muito minha família por nunca estar em lugar algum. Por ter tantos amigos e no fundo não ter nenhum. Quando a amizade estava consolidada era hora de partir. E o partir era o que mais machucava e machuca até hoje. Lembro das vezes que chorei no cantinho e minha família nunca compreendia, afinal a mudança geralmente era vista como algo bom, era uma oportunidade de crescer. De fato é, mas só é quando estamos cientes disso e eu não estava. A única consciência que tinha era que meus amigos seriam revisitados talvez depois de 10 anos ou nem isso, que não valia a pena pintar a parede do meu quarto de lilás porque tão logo ele não seria mais meu. Não quero me queixar mais uma vez ou dizer que tudo foi de todo ruim. Não, longe disso. O que eu quero, de verdade, é sonhar e esperar pelo dia que eu tenha um lugar, um cantinho que eu sinta como que verdadeiramente meu. O cantinho para que eu possa voltar depois de desfazer as malas e alimentar das lembranças dos doces dias de férias.
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