segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

“Casa de ferreiro, espeto de pau...”

Certa vez exercitando uma tabela de temporalidade documental, lembro da professora que dizia que deveríamos nos desapegar de certos documentos pessoais. Quando ela falou aquilo, foi um auê na sala “e nossas lembranças?”, “isso faz parte de nossa história” e demais devaneios. Ouvir aquilo doeu como um tapa no rosto, como uma enxurrada que devasta nossa frágil memória. Sem exagero, foi um choque coletivo. O que me confortava naquele momento era que aquilo era apenas um exercício e que nunca (eu disse nunca) aplicaria na minha “vida documentada”. Por mais que tudo esteja caprichosamente guardado (pelas mãos da minha mãe), sei que a maioria dos convites de aniversário, lembrancinhas, cartõezinhos de escola não fazem mais sentido, até porque não lembro mais que eles existem, a não ser quando insisto em procurar uma foto daquele amigo que não vejo há 15 anos ou daquela festa que reuniu todos os parentes no ano novo. Sim, porque lá em casa a caixa de lembranças acondiciona tudo o que diz respeito a tempo passado, mesmo que o tempo passado não diga mais respeito à gente. E quando penso que há tanta velharia, papel desbotado e cartões amassados que ocupam espaços em vão, eu teimo a me emocionar e dizer que são apenas lembranças e que, quem sabe um dia, eu volte a querer vivenciá-las. Mesmo que esse dia nunca chegue.

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