O meu tio de Uruguaiana
O meu tio de Uruguaiana sorri debochado. Lembro daquele sorriso eternizado nas fotografias e me sinto desconfortável em pensar no porquê dele estar na minha família. Não teria jeito, se não fosse ele seria outro. Mas aquele sorriso, ahhhhhhhh, aquele sorriso faz com que a gente se sinta um lixo, um aterro no meu caso. Ele é do tipo que não aceita felicidade alheia. Do tipo que a única e verdadeira alegria é a que ele sente. Sim, porque apartamento, carro, faculdade e viagens só ele tem de melhor. Não importa o meu apartamento novo no Mont’Serrat, ele logo vai dizer que o bairro não é dos melhores e que a vizinhança não é de confiança. O meu carro zero na garagem que eu paguei à vista? Diz logo o Tio de Uruguaiana “Isso aí tem cara de usado, tem certeza que é novo?”. A viagem a Paris, “tem noção do frio que faz por lá essa época do ano?”, a viagem a Salvador “faz idéia do calor que está lá?”. Porto de Galinhas? “Que tu vai fazer por lá? Não há nada o dia inteiro a fazer”. E a faculdade então, “que futuro você vê nisso?” Não importa que seja Medicina na FUVEST ou Economia em Harvard, importa que ele diga que não presta. É como se a concepção dele fosse o famoso reconhecimento ilibado da sociedade, com exceção que a sociedade não tem aquele sorriso que só ele tem. Aquele sorriso do Tio de Uruguaiana que insiste em dizer: “Desista menina, você nunca vai chegar lá”. Até porque se um dia eu chegar, já não será mais suficiente, mesmo que ele ainda esteja aprendendo a caminhar e eu já esteja voando.
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