O olhar de um preconceito...
Coisa mais fácil que existe no mundo é rotular. Rotulamos um produto pela aparência da embalagem. Rotulamos uma pessoa pelo seu modo de falar, de andar, sorrir. Pela sua face, pelo seu corpo, por sua cor. Não sofri preconceitos, mas sofri rótulos. Por mais que nos digam “não dê bola para o que os outros falam”, há coisas que doem. E como doem. E pior quando nos ferem, querendo atingir outro alguém.
O ínicio da minha infância foi bastante significativo. Brinquei muito na rua. Embora tivesse um temperamento quieto em sala de aula, bastava despontar pra rua que revelava meus mais belos segredos de criança. Corri, brinquei e pulei. Mas longe desse lado poético, sofri. Tinha amigas de todo o tipo na escola e confesso que embora reconhecesse fisicamente suas diferenças, o sentimento por elas não mudava. Não conseguia, internamente, verificar nenhuma diferença.
Lembro de um episódio que marcou minha vida. Minha bicicleta amarela. Sim, eu tive uma bicicleta amarela. E emprestei minha bicicleta amarela e emprestaria quantas vezes me pedissem. Era minha e sempre seria. Independente de quem andasse nela. O fato é que no belo dia que resolvi empresta-la, ela retornou com o pedal quebrado. Tudo bem, o que é um pedal quebrado. Tantas vezes estraguei. Mas aquele pedal quebrado era diferente. A menina que andou na minha bicicleta, que quebrou o meu pedal era negra. E eu não me importei com isso, nem com o fato dela ser negra, nem com o pedal quebrado. Minhas outras amigas se importaram e trataram logo de fazer com que eu ficasse contra a menina. “Você não vê? Ela não presta, ela quebrou a bicicleta”. Não, ela não quebrou a bicicleta, foi só o pedal. “Não sei como você pode ser amiga dela, ela é negra, ela é pobre. Nunca poderá pagar o conserto”. Confesso, eu fiquei balançada. Me senti como aqueles desenhos animados onde o anjinho e o diabinho disputam sua atenção sobre os ombros. E eles têm argumentos fortes, eles conseguem te manipular. E você pende para o lado, pende para o outro e balança, balança, fica tonta. Arghhhhhhhhh, você só quer gritar ‘chega’. Bom, eu não gritei. Eu fiquei quietinha, bem quietinha. Tão quieta que pude ouvir meu coração. E por que o coração de uma criança fala tão mais alto que de um adulto? Eu não sei, mas naquele dia eu o ouvi e pude agir como uma criança, porque só crianças com um coração puro, longe de qualquer preconceito, são capazes de dar um basta e dizer “dane-se o pedal, ela é minha amiga e ponto final”.
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